A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado/Capão do Leão/RS



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Por Cátia Simone da Silva

Esse diário de campo fez parte da pesquisa sobre “A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado”, município de Capão do Leão, ao Sul do Brasil. A extração mineral granito é uma das principais fontes de renda, juntamente com o cultivo do arroz e a pecuária.

A metodologia empregada foi o uso do “diário de campo”, recursos audio-visuais (fotografia e filmagens), que constituirão parte de um “documentário etnográfico” e também: um questionário semi-estruturado com perguntas a partir dos problemas em questão: “trabalho e gênero”.

Como nasci e moro no local, sou portanto uma nativa, devo segundo Magnani (2002) “estranhar o familiar”, e o estranhamento deu-se na medida que ia sendo conduzido as entrevistas, pois foram surgindo expressões e palavras que eu não conhecia ainda.

A pesquisa tem como foco a categoria trabalho, o qual está imbricado com a territorialidade, e é uma das principais constituições identitárias do grupo. Desta forma não poderia deixar de comentar a etmologia da palavra “trabalho”, conforme Cunha:

“Trabalho tem o sentido de torturar, derivado de tripalium (instrumento de tortura). Dá idéia inicial de “sofrer” passou-se à idéia de esforçar-se, lutar, pugnar e, por fim trabalhar; ocupar-se de um míster, “exercer o seu ofício”. Do latim: Tripalire – entrada no português, século XIII).” (NOGUEIRA, 2001. P. 38 APUD: cunha, 1987. P. 204).

No primeiro sentido de “torturar”, pode ser percebido aqui nas atividades, pois os trabalhadores ficam expostos a vários tipos de acidentes. Existem casos de mutilações dos dedos, perda da visão por lascas de pedras ou ferro, e acidentes de toda a ordem, inclusive casos de óbitos. Além das persuações das políticas públicas ambientais, vulnerabilidade econômica, sendo na maioria dos casos um trabalho informal. Mas também é visto pelos interlocutores com orgulho, pois ocupam-se da atividade desde criança.

Sai pela manhã  como o flâneur 1 de Walter Benjamin, (ROUANET, 1993), sem um horizonte claro para as minhas caminhadas, deixando a intuição e os acontecimentos à minha volta me conduzirem no caminho que eu deveria seguir. Saindo nesse dia com dois problemas a descobrir e mais um terceiro que surgiu durante as entrevistas.

Minha primeira dúvida é o significado do termo “marroeiro”, porque num blog sobre “A história do Capão do Leão”,  dizia que o termo graniteiro é utilizado para os que trabalham fora do DEPREC2, pois nessa empresa os trabalhadores no passado e até hoje possuem a denominação de “marroeiro”.

A outra era sobre gênero, gostaria de saber sobre o trabalho das mulheres nas pedreiras, ou se era feito só por homens, se já teve mulher, quando, e qual era a participação delas na atividade, além de auxiliarem em casa e cuidarem dos filhos.

Então, com as sensações do “Anthropology Blue” fui em direção à casa da Sra. Maria da Conceição, esposa do Sr. Teodoro Alves Pereira (85 anos), o graniteiro mais velho do município, no caminho encontrei Joel (marroeiro) e expliquei que estava fazendo um trabalho para a faculdade e perguntei se ele poderia me ajudar em uma dúvida sobre a profissão de marroeiro dentro do DEPREC, indaguei sobre qual a diferença que existia entre marroeiro e graniteiro.

Para ele: “Marroeiro ou graniteiro é a mesma coisa, cortam pedra”. Me explicou rápido, e quando eu perguntei se poderia anotar e gravar, simplismente disse-me que o Paulo Antônio me daria uma explicação melhor, e já pegou o celular e ligou para o colega de serviço explicando o que eu queria e dizendo: “ela já está indo aí”.

Quando cheguei no escritório do DEPREC, o Sr. Paulo Antônio também me explicou muito rápido e quando perguntei se ele permitia uma gravação, ele disse, “O Jairo já está chegando e é ele que vai te explicar melhor”.

O Sr. Jairo Umberto Pereira Costa, é o administrador da Superintendência do Porto de Rio Grande aqui no bairro, local onde se deu as entrevistas. Ficou contente quando eu disse que privilegiava as histórias orais contadas pelos próprios atores  envolvidos nas temáticas de pesquisa: aqui são os graniteiros, suas cônjuges e ou outros.

A partir de uma pergunta com a filmadora desligada, eu conversava com o Sr. Jairo, somente após as explicações é que eu gravava a minha pergunta e a explicação dele. Essa técnica eu descobri na hora, com a alteridade senti que assim ficava melhor para ele se preparar com a resposta. Conforme o desenrolar das respostas eu já observava e preparava outras perguntas que estavam contidas naquela resposta, solicitando mais detalhes.

Subjetivamente o Sr. Jairo expressava no presente uma memória coletiva do passado, onde foram narrados dados históricos da empresa Compagne Française Du Port do Rio Grande do Sul, que chegou e originou o bairro no início do século XX, e após foi sucedida por uma empresa americana e duas brasileiras.

Comentou: “Nós temos aqui equipamentos franceses e americanos, essas empresas trouxeram especialistas em pedra para cá, foram geólogos alemães, italianos, americanos que contribuiram com o desenvolvimento da técnica do corte do granito aqui no município, pois antes era feito com cunha de madeira e depois passaram a usar o ponchote”.

Também narrou fatos da sua vida pessoal e de outros que diziam respeito sobre a profissão de cortador de pedra. Explicou que iniciou na profissão desde cedo, aprendeu com o pai, e aos 18 anos entrou como funcionário do DEPREC2, onde exercia a função de “marroeiro”, disse-me que todos que cortam pedras são graniteiros e dentro desta profissão existem várias funções; foguista, marroeiro, cortador de pedra,… explicou cada uma delas. “A denominação marroeiro, se dá porque os trabalhadores usavam uma ferramenta chamada “marrão” para bater e amiudar as pedras”.

Comentou os nomes das ferramentas utilizadas para o corte da pedra: o ponchote, ponteiro, recaladeira, marrão, maceta…, e suas utilizações, alguns nomes ainda em francês, herança da empresa francesa de extração mineral.

Indaguei ao Sr. Jairo sobre como identificam o veio da pedra, ele me respondeu:
_ “O veio da pedra aqui na nossa região é identificado no sentido que nasce o sol, do leste para o oeste teremos o “seda”, em oposto, sentido norte – sul, teremos o “trincante”, e outros…”.

O Sr. Jairo me forneceu várias informações que eu precisava e auxiliou-me muito na minha pesquisa, nos despedimos pois já era quase meio-dia.

À tarde, fui conversar com o casal de vizinhos, a Sra. Maria da Conceição Pereira, mais conhecida por “Negrinha”e o Sr. Teodoro Alves Pereira, também conhecido como “Doro”, ele é “o graniteiro mais velho do município”,  com ele busquei a sua história de vida e também informações a respeito da sua profissão, já que está com 82 anos e trabalhou até poucos anos atrás.

Ele explicou que iniciou na profissão desde cedo, pois na escola brigou com uma colega e chamaram o seu pai,  que era o maquinista do trem e funcionário do DEPREC. E disseram: “Pantaleão ou é tú no DEPREC ou o Teodoro no colégio”. O Sr. Teodoro lembra da decisão que o pai tomou: “Ah, o meu pai não pensou duas vezes, me falou amanhã tú pega a panela com comida e vai pro Cerro das Almas trabalhar nas pedreiras”.

“Desde os 13 anos corto pedra, aprendi com três amigos, a gente aprende a fazer todo o serviço sozinho, eles te riscavam uma pedra, te diziam e depois não falavam mais e aí o cara tinha que fazer”.

Pensando na relação com gênero conversei com a Sra. Maria da Conceição e ela comentou que “Além de criar os dez filhos, lavar-roupa e fazer todo o serviço da casa ainda ajudava o marido na pedreira, criei os meus filhos com o dinheiro das pedreiras.”

Ela exercia várias funções ao mesmo tempo: “cortava paralelepípedos, separava montes de pedra de obra, irregular,… ajudava a colocar as pedras para cima do caminhão… e no serviço da pedreira tinha a ajuda de todos os filhos mais velhos.”

Ainda sobre as questões de gênero, todos os meus interlocutores conheceram algumas mulheres que exerceram a profissão, uma chamada Flor, outra Noemi, Maria da Conceição, suas filhas Tânia e Vera, entre outras que não sabiam o nome.

Durante as entrevistas na casa do Sr. Teodoro, o seu filho mais velho Roberto Almeida Pereira me disse: “Vai lá na pedreira, estamos fazendo um furo”. Fui e encontrei o Roberto e Luiz Fernando da Cruz Joaquim, mais conhecido por “Luizinho” e vi como eles abrem uma pedreira,  perguntei para o Roberto o que eles estavam fazendo no momento, ele é marteleteiro e foguista, e me explicou: “estamos furando a pedreira para detonar”. O  furo era feito com uma marreta batendo em cima de uma broca, depois de terem atingido vários centrímetros de profundidade, encontraram uma “genda”. Roberto explicou que “Teriam que passar pela genda e cortar bem, senão estariam ralados…”.

pedreira

Sentado está o Luiz Fernando, Silvio Medeiros, e na direita o Roberto.

A pedreira era do Luizinho, através da reciprocidade o Roberto está ajudando-o a fazer o furo no “trincante de plumo”, outro amigo o Silvio Medeiros estava só olhando. Eles disseram: “Uns ajudam os outros, pois quando precisamos sempre temos com quem contar”.

Após umas 6 horas o furo estava pronto, com uma réqua foi traçado o trincante, que depois foi perfurado com os ponchotes, essa ferramenta dá direção ao corte na hora em que a rocha for dinamitada. Explicaram também que esse processo manual dependendo leva até um dia, e se pedissem para o patrão furar com o compressor, levaria uns 10 minutos.

No entanto, outros graniteiros me explicaram que mesmo obtendo a ajuda do patrão, eles dependerão da hora que o patrão poderá ir, e também se revestirá em uma espécie de compromisso com o patrão, que irá determinar o que será cortado e o valor que custará.

A dificuldade de possuírem um compressor é o valor, que para eles é muito caro, Luiz Fernando comentou:

“Um usado custa em torno de R$ 5.000.00 à R$ 6.000,00 e a broca uns R$ 80,00. Na ponta da broca tem uma vídia de diamante que perfura a rocha, e isso os mais baratos que são feitos com motor de um caminhão Scania, pois existem outros bem mais caros”.

Também  obtive dados pessoais sobre as suas inserções na atividade, com quem aprenderam, idade que iniciaram… suas funções, e informações referentes a atividade em questão.

Após algumas horas de gravações, ainda tinham que fabricar a pólvora para dinamitar a pedreira, infelizmente não pude permanecer e despedi-me agradecendo, na hora Luizinho e Roberto disseram “Tomara que tú tenha trazido sorte para nós”,  e eu disse que tinha levado sim. Após algumas horas em casa ouvi o barulho da explosão, e em alguns dias depois descobri que haviam dado um bom corte.

Notas:

1 –  A ideia do flâneur, passeando e vai descrevendo o que vê, a duração do passado dentro do presente, percorrendo e descrevendo um lugar dentro das suas temporalidades. Pois os dados não são só coletados, mas também construídos. Benjamin, vem com a ideia de bricouleur, onde o flâneur coletando imagens, registrando memórias, fotografando e produzindo imagens  busca uma lógica  a esses fragmentos.

2 –  DEPREC – Significa: Departamento de  Portos Rios e Canais.


Referências bibliográficas:

ROUANET, Sérgio Paulo. A razão nômade. Walter Benjamin e Outros viajantes. Rio de Janeiro: UFRJ: 1993. Parte 1 – Viajando com Walter Benjamin. Cap. 1: “Viagem no Espaço: a  Cidade” (pp. 21-62).

MAGNANI, José Guilherme Cantor. 2001 “De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, ANPOCS/Edusc, vol. 17, no. 49, pp. 11-29. [Disponível tb pportal do Capes]

 

Cátia Simone Castro Gabriel da Silva
Discente do Bacharelado em Antropologia Social e Cultural / UFPel
Integrante do NETA – Núcleo de Etnologia Ameríndia / UFPel
e NECO – Núcleo de Estudos sobre Populações Costeiras e Saberes Tradicionais/FURG

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